segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O DESEMBARQUE


– O champanhe! – gritou Li Chang, excitadíssimo, assim que os écrans retomaram as imagens do desembarque naquela praia. Os sapiens esmeravam-se. As cenas eram retransmitidas em todo o seu esplendor de cores, depaysement, surpresa e dimensão.
– Venha o champanhe! – secundou Rita Aboukati, a socióloga, aproximando-se.
– Então vocês não sabem que aqui não se bebe champanhe para comemorar, nem no Tour de France... mesmo que seja um francês a ganhar!... – disse Gerard Matieu, sustendo a esbelta senegalesa por um braço.
Janusz Zielinski, o polaco, foi buscar vodka, e o radioastrónomo Mendes apressou-se a desenterrar uma garrafa de medronho de três quartos de litro, escondida atrás duma resma de dossiers e fotografias de família, junto à parede, e que ostentava um rótulo escrito à mão – mão amiga e rústica... – que pintava assim:
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M E D R O N H O   D E   M O N C H I Q U E
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Voltava-se às origens, desde há muito...
Naquele grupo restrito, junto dum dos terminais que mostravam imagens em tempo real, o álcool iria correr, livre e límpido, pelo gargalo, não à falta de copos (que a casa supria...), mas porque os grandes momentos se comemoram com os fluidos a escorrer pelos cantos da boca e pelos beiços, como faziam os nossos antepassados guerreiros, depois da vitória. O único contágio que era preciso não evitar, era o da plenitude. No entanto, uma pequena hesitação do francês, serviu para que o radioastrónomo esclarecesse que no seu país tinha sido compreendido "há centenas de anos" que os "álcoois brancos como o medronho e, muito certamente, o vodka ou o calvados" – assegurou com convicção –, matam à nascença toda e qualquer possibilidade de contágio, dos que bebem pelo mesmo copo!... Daí a expressão matar o bicho, que – segundo ele... – era como se devia começar o dia!
Enquanto o francês barafustava inutilmente, afirmando que a expressão era francesa,  o desembarque dos nautas do planeta Esmeralda da ε de Eridanus, passou a monopolizar a atenção dos restantes. À mesma hora, por todo o mundo, milhões de outros precipitavam-se sobre os receptores, muito provavelmente comemorando com outros álcoois e outros ritos. As imagens eram sensacionais. As câmaras de S. Gabriel operavam agora os seus zooms, de sucessivas e judiciosas aproximações e distanciamentos, de forma a terem os telespectadores da Terra, uma perfeita visão de conjunto e de pormenor.
– O que eu gostaria de saber, é se os sapiens têm a verdadeira noção do que se está a passar... – comentou Rita Aboukati.
– Tudo leva a crer que sim – disse Mendes. – Os sapiens "sabem" tudo!... Há certamente uma enormidade de coisas interessantes a acontecer na grande ilha do Norte, onde uma civilização tecnológica está em vias de nascer, mas os sapiens presenteiam-nos com estes acontecimentos numa ilha... da Idade da Pedra!... Perceberam que os navegantes estão no limiar das descobertas marítimas do seu próprio planeta. E isso não é para admirar, pois leram tudo quanto nós conhecemos sobre as pioneiras viagens oceânicas.
Referiu o achamento dos Açores, onde os navegantes foram recebidos por grandes pássaros; de Santa Helena e S. Tomé; da dobragem do Cabo da Boa Esperança que haveria de levar ao Índico e ao procurado Ganges: da crónica de Vaz de Caminha, que não falava do almejado ouro nem da prata, mas sim de índios e papagaios... aquando da chegada a terras de Santa Cruz. O espanto de Cook ante as estátuas descomunais e enigmáticas da ilha de Páscoa... a descoberta da América...
– E as expedições de Cheng Ho pelo Pacífico e a à costa oriental de África... no tempo em que os europeus ainda pensavam que a Terra era quadrada?! – interrompeu o cantonês, sem esconder alguma irritação, mostrando-se ferido no seu amor próprio e nacionalismo.
– Sem dúvida que sim!... – apressou-se a confirmar o rádio-astrónomo. – Mas também... – disse ainda, abanando repetidamente a cabeça, como quem não entendeu o remoque –, as viagens de circunvalação da África, protagonizadas por Ibn Majid... que acabou por ser piloto do Gama, e todos os comportamentos e ritos das civilizações primitivas da Terra...
Os Aztecas que adoravam um Sol e uma Lua, em oiro e prata. Os Kinkas para quem o céu era, a um tempo, o deus e a chuva. Cenas da vida quotidiana dos egípcios do tempo de Ra-Hor-Ahthy – "O Sol Brilhante Nascendo No Horizonte". Chaco Canyon, onde os Anasazis representaram a super-nova de 1054, num petrógrifo. Celebrações druidas dos Escoceses, no primeiro dia do ano, e que ainda hoje se realizam com o mesmo fervor e folclore de há dois milénios. Stonehenge, os menires celtas, mais os sacrifícios humanos praticados pelos povos da ilha Carolina. As rodas mágicas de Big Horn e Moose Mountain, provavelmente observatórios celestes ou templos, feitos de enormes blocos de pedra chamados dólmens. E a pirâmide Baphuon de monte Meru... e o santuário olmeca de La Venta...
Foi então que os sapiens começaram a mostrar o rio.
 .
em A Febre do Ouro, pág 117

1 comentário:

  1. Uma ficção bem pé no chão, tanto que, eu, uma pobre mortal terrestre, gostou da temperada salada, herdada dos grandes exploradores (no bom sentido),que foram os navegadores...

    Um abraço!

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