As profundezas do subconsciente, movidas pelos
arquétipos enraizados na história genética dos seres inteligentes do planeta,
traíam-no de vez em quando.
- Tem alguma razão para pensar que não eram os
mesmos?... - perguntou o cartógrafo, ignorando os desvios do subconsciente do cidadão comandante naval, e mesmo a
sequência lógica que encetara quando foi interrompido.
- Os mesmos... como...?
- Tem alguma razão para pensar que os que nos atacaram
de dia, não sejam os mesmos que nos atacaram de noite? - repetiu.
- Não. Não tenho.
- Tem a certeza?
- Como posso saber? A certeza não tenho...
- E então...
- Então... o quê? O que quer que lhe diga? Julgo que
fossem os mesmos... - desdisse o marujo, após uns instantes. - O que eu duvido é que sejam parecidos connosco...
Para ele, toda a questão residia neste ponto. A
frustrante experiência da véspera mostrara-lhe a grande dificuldade - senão a impossibilidade - em lutar contra os utentes das árvores. De dia não os
vira. De noite pareciam sombras, mas atiravam com muita pontaria as suas setas
envenenadas. Não tivessem eles cometido o erro de ter atacado em grupo, de um
só lado... e não teria ficado ninguém para contar fosse o que fosse... Veio-lhe
à cabeça que o capitão seu homólogo descobridor da Ilha dos Pássaros, teria
chegado, também ele, à Ilha das Árvores, na segunda viagem, e que toda a sua
tripulação tivesse sido massacrada nas margens do rio. Podia ter acontecido.
Qualquer um raciocinaria da mesma maneira... Ainda bem que trouxera os sábios.
Sem eles, talvez tivesse cometido o erro de desembarcar de noite, com toda a
tripulação, para sacar o ouro e as bolas de prata, sem precaver-se contra eventual
ataque, e poderia ter sido um desastre completo.
Achavam-se num beco, ilhados, embora a galera já se
encontrasse bem ao largo. De novo, o mesmo moscardo esbarrava no indelével vidro
transparente.
.
em A FEBRE DO OURO, pág 163