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sexta-feira, 13 de julho de 2012

O REGRESSO

A viagem de regresso foi atribulada. Não propriamente pelos caprichos do vento ou as investidas descabeladas daquele mar-oceano sem fundo – que não chegaram para vencer a ciências dos sábios e a audácia do capitão, embora causando estragos irreparáveis na caravela segunda –, mas porque os sobreviventes da odisseia marítima e da planície das árvores, se puseram todos de maleitas desconhecidas, empalidecendo e definhando a olhos vistos. Cada um no seu posto: os marinheiros mareando, a pouco e pouco mais incapazes de lidar o velame e o leme que os havia de levar a casa; o cronista escrevendo tremulamente, tremelicando, como se atacado de pavor ou gelo; os dois sábios – criaturas indo para o inverno da vida – exorbitando a sua condição de sábios de mapas e de pedras, para dizer coisas impensáveis e incompreensíveis a respeito do fundo do mar e suas conchas, que incluíam os abismos do céu e a lonjura das estrelas e outras quejandas charlas acerca do oiro e das esferas de prata, mais a quentidão das águas e a altura do Sol caindo a pique na Ilha das Árvores como uma espada de Damocles. Os de bordo – mesmo se eles próprios intermitentemente alucinados, congeminando apocalipses e delírio – diziam que os sábios tinham enlouquecido, tomados pelo demónio da febre, pois ficavam horas e horas a fio, a falar sozinhos – por vezes de noite... – deambulando pelo convés do navio e soltando grandes gritos sem nexo e fazendo grandes gestos desabridos, esbracejando que nem possessos. Estes sintomas – o mais intrigante sendo a cor de latão que tomavam as esferas rotativas dos olhos -, quando mais tarde foram reveladas as crónicas de então, ganharam um nome para a posteridade: a febre do ouro.
O cronista lá foi escrevendo o que podia, empapado em suores frios e estranhamente também em calores que descreveu como sendo capazes de derreter as fivelas dos cintos!... E, inspirado por dedução que vinha da muita leitura e pelo facto de não serem logo afectados os que ficaram a bordo, decidiu que as sezões tiveram origem na água que beberam do rio. Parecia o único a manter o espírito lúcido, apesar da grande tremedeira de mãos e queixos; e felizmente que assim foi, no entendimento do que viu e ouviu, pois o que fica escrito tem a força dum toiro. Assim é a palavra, o símbolo conceptual que anuncia as flores do espírito: também o tinha sido a egípcia "roseta" de Champollion; a supernova do Touro, visível pelos céus dos céus, em todos os planetas da Galáxia – entalhada numa laje do Arizona, pelos índios Navajos, juntos dos canyons e da Grande Montanha Sagrada; um poema inscrito na água, dum Debussy universal e único, em reflexos do que é móvel e perece, perdurando.
Já o que foi dito pelos sábios, perdeu-se para sempre no vazio do éter, não obstante um deles ter chegado vivo da odisseia.
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em A FEBRE DO OURO, pág 87 
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VEJA TAMBÉM OUTROS EXTRACTOS (mais abaixo),
a ver se consegue tomar o fio à meada...